Fica conosco, Senhor!
Pe. Vitor Galdino Feller
Diretor do ITESC
|
Mane nobiscum Domine – Fica conosco, Senhor! Eis o título da Carta Apostólica de João Paulo para o Ano da Eucaristia. O papa inspirou-se na súplica dos discípulos de Emaús para torná-la súplica de toda a Igreja no caminho das nossas dúvidas, inquietações e desilusões. Na apresentação, o papa define as datas de início e fim do Ano da Eucaristia ( início : outubro de 2004, com o Congresso Eucarístico Internacional, no México; final : outubro de 2005, com o Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia). Em seguida, o papa convida a Igreja a recolocar-se no sulco do Concílio Vaticano II (1962-1965) e do Jubileu da Encarnação de Jesus celebrado no ano 2000, para contemplar com Maria, mulher eucarística, o nome e o rosto de Cristo, que é centro não só da Igreja, mas de toda a humanidade. O papa desenvolve, então, um breve tratado da Eucaristia como mistério da luz, fonte da comunhão e princípio da missão. Na escolha destes três temas, o papa põe-se na esteira da eclesiologia do Concílio Vaticano II, que vê a Igreja precisamente como mistério, comunhão e missão. Tal qual um bom número de documentos do atual pontificado, também este se coloca sob esta tríade eclesiológica.
EUCARISTIA: MISTÉRIO DE LUZ
Jesus designou-se a si mesmo como luz do mundo. Essa revelação está clara em sua transfiguração e em sua ressurreição. Mas, na Eucaristia sua glória fica escondida sob as espécies do pão e do vinho. Em cada missa, a liturgia da Palavra é o momento de iluminação, de esclarecimento do mistério que se está para celebrar. No discurso do pão da vida e na narração dos discípulos de Emaús, as palavras de Jesus serviram para explicar as Escrituras e conduzir ao mistério de sua pessoa, até tirar os discípulos da obscuridade da dúvida, da tristeza e do desânimo. Daí a necessidade de que se celebre esta parte da missa com cuidado, preparação prévia, escuta devota e silêncio meditativo, de modo que a Palavra de Deus ilumine de fato a vida dos fiéis. Como os discípulos de Emaús, também hoje os fiéis devem deixar-se iluminar em suas inteligências e corações com a Palavra do Mestre e com o gesto da fração do pão. Deve-se evitar a tentação de reduzir a Eucaristia às dimensões do ser humano. Ao contrário, são os fiéis que devem abrir-se às dimensões luminosas do Mistério.
Na luz da Palavra, há de se compreender as duas dimensões da Eucaristia: banquete e sacrifício. Nascida na última ceia, a Eucaristia tem na sua estrutura o sentido da partilha, da comunhão que Deus quer estabelecer conosco e que nós devemos viver com os outros. Enraizada na cruz, a Eucaristia é o sacrifício do corpo entregue e do sangue derramado de Cristo. Assim, cada missa é memorial desse passado de banquete e sacrifício, mas aponta para a presença do Cristo ressuscitado e projeta-nos para a última vinda de Cristo no final da história. Todas essas dimensões da Eucaristia – banquete, sacrifício, memorial da Páscoa, antecipação escatológica – encontram sua síntese no mistério da presença real, pela qual o Cristo total se torna substancialmente presente na realidade de seu corpo e de seu sangue. Por isso, a Eucaristia é mistério de presença, mediante o qual se realiza de modo excelso a promessa que Jesus fez de ficar conosco até o fim do mundo.
Daí a necessidade de uma catequese que ajude a descobrir os valores dos gestos e das palavras, dos cantos e da música, dos ritos e dos sinais sagrados, que leve os fiéis a passar dos sinais ao mistério e a vivê-lo em todos os momentos da vida. A consciência viva da presença real do Senhor ajudará a cultivar o cuidado com a celebração da Eucaristia, até testemunhá-la no tom da voz, nos gestos, no silêncio, nos ritos.
Também a presença de Jesus no sacrário, deve tornar-se um pólo de atração para um número cada vez maior de pessoas apaixonadas pelo Senhor. Daí a sugestão de que a adoração eucarística fora da missa e a solenidade de Corpus Christi se tornem um compromisso especial das comunidades religiosas e das paróquias, como espaços para a adoração e a contemplação da presença do Senhor entre nós.
EUCARISTIA: FONTE E EPIFANIA DE COMUNHÃO
Além de permanecer com os discípulos de Emaús, o Senhor quis permanecer dentro deles, numa relação de íntima e recíproca permanência – ele em nós, nós nele – que antecipa o céu na terra. É assim saciada a fome que o ser humano tem de Deus. Trata-se, porém, de uma intimidade que não pode ser entendida de modo individualista. A comunhão pessoal com Cristo só pode ser plenamente vivida na Igreja. Estar com Cristo é estar com seu corpo, que é a Igreja. A comunhão eclesial, por sua vez, se fundamenta no fato de que todos os fiéis se alimentam do mesmo pão eucarístico.
Sendo fonte de comunhão, a Eucaristia é também manifestação, epifania dessa mesma comunhão. Por isso, a Igreja põe condições para se poder participar de modo pleno da comunhão eucarística. Essas condições ou limitações mostram como é exigente a comunhão com Jesus e com a Igreja. Trata-se de uma comunhão ao mesmo tempo hierárquica e fraterna. Hierárquica, porque respeita as diversas funções e ministérios. Fraterna, porque cultivada com uma espiritualidade que produz estima, compreensão, perdão.
Assim, em cada Missa realiza-se o ideal de comunhão vivida pelos primeiros cristãos, conforme o testemunho dos Atos dos Apóstolos. Daí a sugestão de que se valorize a chamada “Missa estacional” que o Bispo diocesano celebra na catedral com os presbíteros e diáconos e com a participação de todas as vocações do Povo de Deus. É também importante que se dê maior atenção à Missa dominical, como celebração onde a comunidade paroquial se encontra na comunhão de suas variadas expressões. Deve-se ainda pôr em especial relevo o Domingo, como dia do Senhor e da Igreja.
EUCARISTIA: PRINCÍPIO E PROJETO DA MISSÃO
A alegria do encontro com o Ressuscitado não pode ficar restrita ao âmbito privado. Como os discípulos de Emaús, também a Igreja e cada cristão são suscitados pela comunhão eucarística à urgência de testemunhar e evangelizar. Há uma estreita relação entre o banquete e o anúncio: entrar em comunhão com Cristo no memorial da Páscoa significa experimentar também o dever de fazer-se missionário. A despedida no final da Missa é um verdadeiro mandato para a propagação do Evangelho e a transformação da sociedade. Nesse sentido, a Eucaristia oferece não apenas força interior, mas também um determinado projeto: irradiar na sociedade e na cultura os valores que a Eucaristia exprime.
Um elemento fundamental desse projeto provém do próprio significado da palavra “eucaristia”: ação de graças. A Igreja deve recordar a todos que o “sim” de Jesus tornou-se o “obrigado”, o “amém” da humanidade inteira. Numa sociedade esquecida de Deus e da virtude da gratidão, onde reina a auto-suficiência, é urgente resgatar a referência ao Criador, a abertura ao transcendente, que não prejudica, mas, ao contrário, fundamenta a autonomia das realidades. Trata-se de testemunhar a presença de Deus no mundo e de ostentar os sinais da fé. A “cultura da Eucaristia” promove o diálogo, a relação harmoniosa entre as culturas. Quem aprende a dizer “obrigado” à maneira do Crucificado poderá ser um mártir, mas nunca um algoz.
Outro elemento desse projeto eucarístico é a solidariedade em prol da humanidade inteira. Na Eucaristia, a Igreja toma consciência de ser sacramento não só da união com Deus, mas da unidade de todo o gênero humano. Na Missa, o fiel aprende a ser promotor de comunhão, de paz e solidariedade num mundo marcado por guerras e atos terroristas. Desse projeto eucarístico faz parte também o compromisso com a edificação de uma sociedade mais justa, em que os pobres e esquecidos sejam colocados em primeiro plano. Trata-se de uma inversão de todos os critérios de domínio, em favor do critério do serviço, no modelo do lava-pés. Daí a sugestão de que nesse Ano Eucarístico se dê especial atenção aos pobres, idosos, desempregados, migrantes e todas as pessoas que padecem necessidades.
Pe. Vitor Galdino Feller
Diretor do ITESC |
|